Te chamo de criança
Te deito em meu colo
Aponto algumas estrelas
E te conto histórias sobre elas
Veja o quanto estão longe
Ainda sim podemos ver que brilham,
É assim nossa felicidade, meu pequeno
Se levante de pés descalços
Sinta a brisa, ouça os grilos
E feche bem seus olhos
Verá surgindo no horizonte
A luz de uma felicidade
Colorida como os sorvetes
Que vem derretendo todo passado de flocos escuros
Eu te envolvo em meus bracos
Embalando suavemente seus sonhos
A relva cintila sob nossos pés
Então sentimos mais uma vez
O calor do abraço, do carinho e do sol.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
Venoso
A mão escreve trêmula
O peito infla soltando ruidosamente o ar
A boca rígida aperta e range os dentes
O olhar duro racharia o ar se ele fosse sólido
Você é esse gosto ruim
É aquela gosma no fundo da garganta depois do azedo
Eu te cuspo
Te escarro
Você é quem preenche o vazio do meu peito
É sua a agonia que sopra minhas narinas
Você é a dor do ódio
É a mágoa que me mancha de negro
Onde acaba o amor
E começa a destruição?
O que difere esse viver
Da morte ininterrupta?
Eu quero que vá!
Quero mesmo que a terra se abra em dentes
E que, escancarada, te devore pra sempre
Não me pesaria ver seu sorriso sangrar para as pedras
Oh, então saia!
Nada de cigarros pra mim
Meu veneno eu mesmo produzo
Te morderia se isso o matasse
A morte te faria eterno
Tal vulgaridade de ser precisa ser extirpada
Que não se propague pelo mundo
Esse pecado atroz
Eu odeio o cinza
A cor me enoja
Seja negro, seja alvo
Mas tire da minha vista esse seu cinza!
Não se mostra por medo
Se vende caro ao que é banal
Saia detrás desse seu azul roubado
Assuma sua imundície de alma
Cuspa na minha cara
Grite algo no escuro
Mas não molhe de lágrimas sua face
Não me consola seu choro
Porque chora, criança?
Prefiro que sangre esses seus olhos
Talvez assim enxergue a cor em mim
E veja o mundo como eu
Me deitei numa cama de negros escorpiões
Me satisfiz e esperei deles amor
Mas como esperar que floresça
No deserto alguma rosa
Você está seco!
Sua muralha se desfaz com o vento
Pois até os maiores castelos
Tornam-se ruínas com o tempo
Toda fortaleza se ergue sobre solo arenoso
Terra encharcada por lágrimas alheias
Toda mágoa sofrida
Cada pequena gota é por você
Cairá do céu escuro
Mágoas líquidas
A enxurrada será impiedosa
E de você não restará lembranças
Não haverá quem chore
No céu o azul legítimo sustentará sobre nós a luz do sol
Fazendo lembrar que não há noite ou dilúvio
Que assole a força de um coração que ama.
domingo, 18 de agosto de 2013
Cinza
O sol há muito havia se posto e o oceano era agora uma
catedral de silente solidão. Me arrastei até a beira do precipício submerso
onde meus olhos nada viam além de uma densa mancha negra e me joguei.
Meu corpo desceu solenemente e pude sentir o frio e a
pressão que me lembravam o quão fundo eu estava. De poucos metros de onde caíra
sua concha, pude perceber que a rachadura que nela havia, era agora um buraco
de onde parte de seu braço escapava.
Me aproximei lentamente, meu coração batia descompassado.
Enfim podia vê-lo, faltava agora pouco para tê-lo livre. Nesse pensamento
toquei o que restava da concha e exerci sobre sua superfície considerável
força. Um ruído mínimo e toda estrutura desabou fazendo subir areia e algas
mortas que se depositavam no fundo do mar.
Quando baixou a sujeira e a água ficou menos turva, pude ver
seu corpo que repousava solene como uma pérola. Foi fácil sorrir de novo. Meus
dedos novamente seguiram as linhas que davam forma aos símbolos milenares
traçados em sua pele. Toquei sua face limpando o que restava de sujeira e me
assustei quando notei que por onde meus dedos passaram sua pele mudava de cor.
Seus olhos se abriram e me fitaram mórbidos e sem expressão.
Não sei bem a razão, mas esfreguei com força sua face, seu peito... por baixo
da pintura tão bem feita, descobri pasmo que uma pele escamosa e cinza cobria
seu corpo. Me afastei e com calma lentidão, sentei-me encolhido num canto ainda
mais escuro da cratera. Percebi sua aproximação e senti que me olhava. Quando
abri os olhos, em minha frente havia agora uma salamandra cinza, ela não
possuía dentes e seus olhos eram cobertos pela mesma pele fina que dava ao
anfíbio um ar cadavérico.
Entendi que nunca havia saído do fundo do mar, ignorando a
existência de ar, sol ou terra, coisas que a mim remetiam a alegria e saudade...por
certo nunca verá a beleza de uma borboleta e o sol pra ele nunca passará de uma
mancha mais clara na escuridade de sua visão, pois na profundidade em que se
encontrava, as imagens eram comodamente ignoradas por seus olhos que agora não
passavam de esferas negras, cujo brilho dava a falsa ideia de vida.
Aceitar que tal criatura era o mesmo ser que até então considerei
divino, me custou muito, por orgulho ou talvez piedade. A transparência da pele
me permitiu ver que seu minúsculo coração estava ferido e batia com dificuldade.
Me levantei caminhando até onde jazia a parte inferior de sua concha, onde um
ouriço de cor negra se movia dificultosamente sobre a superfície lisa. Entendi
que mesmo com o coração ferido, ele não aprendera a se afastar do que lhe
machuca.
Foi no Templo sagrado
da despedida que o abandonei, entregue aos flashes luminosos de alegrias
passadas ,onde ele permanecerá revivendo o que se passou, aguardando alguém que
está há séculos de distância e esquecimento.
Enquanto olhava taciturno a paisagem, ouvi uma voz; a mesma
de sempre, porém dessa vez a reconheci. Era minha própria voz que afirmava
repetidamente: passou, passou, passou...
Como um feitiço que se quebra, a pressão e o frio aliviaram
imediatamente e a água escura de outrora se mostrava densa névoa. Diante dessa
imagem, aceitei que eu mesmo havia criado tal fantasia.O mar, o recanto, sua
imagem...tudo se desfazia ao meu redor.
Me ajoelhei agarrando com força a terra sentindo o calor do
sol da manhã que surgia no horizonte azulado. O vento soprou forte dissipando
toda a névoa e a escuridão que ela trazia. Ergui a mão acima da cabeça e então
a abri para que o vento soprasse toda a terra que nela havia. Confiei novamente
no vento, assim como fazia quando criança e segui a mesma direção da poeira, na
certeza de que ele me soprava o caminho de volta.
Mas passou
Acreditei sentir o sabor
Da realidade que bebia
Mas o movimento da taça
Trouxe à boca o amargo do rancor
Cuspi no chão as palavras de amor
E a elas disse adeus
Sem dor e de olhos tão secos
Quanto sua despedida
Enxugue dos olhos o remorso
Nenhum de nós deve o possuir
Não me molhe de fraqueza
Só assim não te sujo de mágoa
Tomo pra vida o amor que te dei
Dou-me a mão a ti estendida
Pois quando o vento sopra forte
A mudança varre as folhas secas
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Escuro
Durante noites
sem fim e dias cada vez mais escuros, eu velei seu recanto. Meu olhar e
sentidos eram incansáveis e atenciosos. Fiz de sua proteção meu oficio, como se
fosse eu o portador da tal felicidade.
Eu quis
vender o que me restava de vida pela oportunidade de curar suas feridas. Pudera
eu voltar no tempo e retirar cada pedra pontiaguda da estrada antes que tropeçasse
e apagar toda memória sangrenta de quem um dia o magoou. Mas não é possível. O
que pude foi tentar fazer com que o presente seja digno de memórias felizes e
perenes no seu coração. Tentei de todo o coração ser o motivo do seu melhor
sorriso do dia, a mão que te acaricia os cabelos até que o sono chegue e a cada
virada de noite eu desejei, antes mesmo que adormecesse, que o dia vindouro
fosse mais feliz.
Um pequeno
estalo. Mais um estalo e esse foi seguido de um grande estrondo. Meus olhos
rapidamente se tornaram alertas e descobriram a causa do ruído. Atônito eu fitava
em agonia seu recanto. Sua concha havia se deslocado e balançava ameaçadoramente
a beira do precipício. O medo tomou um novo sentido e eu encarei sua face com
tamanha proximidade que sua respiração arrepiou minha pele.
Cada
partícula temporal era um século em minha mente que calculava cada
possibilidade descartando-a logo em seguida. Foi com sofrida convicção que
mensurei minha displicente ingenuidade. Por certo me distrai ou me fiz cego,
mas de alguma forma não percebi a verdade que gritava a minha frente...fora
você próprio a mover a concha, era sua a vontade de cair!
Dor. Nunca
havia parado pra pensar no significado de tal palavra, mas nesse momento eu o
conheci intimamente. O coração quase curado de outras aventuras batia sôfrego e
os olhos secos de outrora transbordavam um pranto sofrido e desesperado que dava
à água salgada uma nota de dolorosa tristeza.
A visão
distorcida me ofertou uma ultima imagem onde te vejo com a face plácida, que
lhe é típica, sumir na escuridão. O silencio foi absoluto e o mar por um
instante se calou em respeito ao meu luto. As bolhas que subiram me trouxeram a
lembrança feliz de nossas brincadeiras com espuma, mas eu não sorri.
Não sei
quanto tempo se passou até que eu pudesse me mover e quando finalmente consegui
não sabia pra onde ir. Eu havia perdido você, os planos traçados, bem como a
vontade de que exista o que eu chamei até então de futuro. Ao mesmo tempo eu
pensava o que seria de você, recalculava possíveis erros... tudo em vão. Eu
bebia agora um copo largo e cheio de amarga realidade.
Percebi, quase
em susto, um calor ameno em meu peito. A chama. O silencio quase eterno foi
rompido em minha mente e a voz doce e muito familiar do oceano me lembrou da
frase tantas vezes por mim repetida “Poucos são os que têm a coragem de se
arriscar em banhos noturnos”. Um sorriso melancólico amanheceu em meu rosto num
reconhecimento a missão confiada e por mim aceita.
Me debrucei sobre
uma grande rocha e a rasguei com os próprios dedos, escrevendo nela nossa
história. O sangue se erguia nas águas como vis serpentes misturando-se a
liquidez de minhas lágrimas. Olhei uma ultima vez para o céu e pude ver a
sombra de uma pequena borboleta que pousou delicada sobre a água. O sol poente
invadia teimosamente a barreira do horizonte, desenrolando sobre os corais do solo
marinho, um tapete de um dourado quase solene.
Quando por
fim emergir das profundezas, provavelmente não reconhecerá meu sacrifício e talvez
eu não esteja vivo para ver seu sorriso carinhoso, quero apenas que a lembrança
dos momentos vividos te guie minha criança à nossa terra prometida, para que as
pedras seculares trilhem o caminho dourado que leva a colina, onde você poderá ver
a paisagem e sorrir para o mundo novamente já livre de dores e lavado do sangue
carmim de outros amores. Desejo ainda que esteja atento quando o vento tocar
seus cabelos assim como eu fazia e que se lembre do que eu dizia sobre a
mudança.
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